ROMANÉE-CONTI PARA TODOS!
 

 
Terminou o primeiro turno. Ciro e Garotinho foram descartados. Ficaram Lula e Serra. Boris Casoy os convidou para entrevista. Primeira pergunta feita a Lula:

— Seu terno é Armani?
Dias mais tarde, Elio Gaspari publicou o artigo ‘‘Lula 2002 toma Romanée-Conti 1997’’. Nele criticou duramente o candidato. Motivo: depois do debate da Globo, a equipe foi jantar num restaurante em Ipanema. Duda Mendonça, marqueteiro do PT, ofereceu ao grupo uma garrafa de Romanée-Conti. Pagou R$ 6 mil. Era presente ao amigo Antônio Palocci, aniversariante da noite. Lula bebeu da iguaria.

Valem as questões. Boris ousaria perguntar a Serra a marca do terno que usava? Se fosse Serra, Elio teria se indignado com o consumo de alguns goles de Romanée-Conti? A resposta é não. E a razão é simples. Boris e Elio deixaram transparecer profundo preconceito social. As críticas relacionadas à formação escolar do candidato petista jogam no mesmo time.

Cada macaco no seu galho, diz o recado. Não invada os domínios da elite. Sua boca é boca de pobre. E boca de pobre é só pra caninha 51. Romanée-Conti não é pro seu bico. Nem terno Armani.

Desde Mem de Sá o preconceito corre solto por esta alegre Pindorama. Pobre não sabe apreciar o bom. Nem lhe dá valor. Por isso, a escola do pobre é ruim. O ônibus do pobre cai aos pedaços. O hospital do pobre carece de remédios, leitos, higiene. A televisão do pobre oferece Ratinhos, Silvio Santos e Gugus Liberatos.

De origem humilde, Lula serve de sadio exemplo da mobilidade social. Migrante nordestino, em São Paulo tornou-se operário no ABC. Assumiu a luta sindical na ditadura. Elegeu-se deputado. Estudou. Estudou muito. Disputou três eleições. Na quarta, recebeu o aval de 39.220.969 eleitores. Mais 3 milhões de votos e ele será presidente do Brasil.
Por esforço próprio, o ex-metalúrgico atingiu posição de destaque na política. Não deve ser confundido com emergentes, para os quais só a demanda conspícua é fato relevante. Os milhões de brasileiros, ricos e pobres, que votaram nele revelaram confiança no seu caráter e na sua capacidade de liderança.

Mudança de classe foi possível no Brasil até ser atrofiada durante o processo de globalização. Amador Aguiar foi boy de banco. Tornou-se dono do Bradesco. Zanini não era arquiteto. Sua obra está exposta em Paris. O talento prescinde da formação acadêmica. O exercício da Presidência da República exige liderança e talento — atributos que não se aprendem na escola nem se compram em supermercado.

Joãosinho Trinta pôs o dedo na ferida. Quem gosta de miséria é intelectual. Pobre quer casa bonita, carro importado, viagem ao exterior. E por que não? Terno Armani e vinho Romanée-Conti.

(Dad Squarisi, colunista do Correio Braziliense)


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