ROMANÉE-CONTI PARA TODOS!
 

 

Barulho por muito

Sobre o Romanée-Conti 97 degustado por um grupo de pessoas na Osteria dell'Angolo, entre elas o candidato do PT à presidência, o que o enófilo pode lamentar é que tenha sido um vinho ainda não amadurecido. E, óbvio, que tenha custado o que custou. Num mundo ideal haveria mais romanées-contis e eles custariam menos. Mas como não os há para todos que os querem, é assim mesmo, paciência. Todo mundo deve ter o seu sonho de grandeza ou de consumo, e um vinho raro pode perfeitamente ser um deles. Talvez se devesse esperar para abrir a garrafa na comemoração final. Se não, o que se vai abrir depois?

Diamantes, por exemplo, estão também fora do alcance do comum dos mortais. Nem por isso as esposas deixam de sonhar com eles. É lícito supor que qualquer candidato, aliás qualquer profissional bem-sucedido, queira um dia presentear a mulher ou a namorada com um anel de brilhantes. Mesmo que esse dia esteja longe.

Com os vinhos é a mesma coisa. Os apreciadores sempre vão esperar cruzar com um Romanée-Conti um dia. Já me aconteceu, duas vezes, em mais de 20 anos de dedicação à causa. Não invejo quem o pode degustar com mais freqüência. E mais: faço votos de que o vinho lhe tenha sido inesquecível, porque para isso é que foi feito.

Renúncias ascéticas são no mínimo estranhas ao mundo do vinho. Outras atividades a que a mão humana agrega valor, como carros e câmeras, também obedecem a uma torturante lógica de preços altos, o que torna tais artigos objeto de cobiça ainda maior, entre outras coisas precisamente porque faz parte da mística deles o fato de serem quase inatingíveis. A natureza humana, tão acostumada a durezas e castigos, sempre sonhou alto.

Assim tem sido desde a antiguidade, quando se firmaram os conceitos de luxo e riqueza. Nem as fés mais opressoras, como a da Igreja medieval e do aparelho de Estado totalitário, apagaram tais verdades, por injustas que fossem.

Franciscanos, penitentes, calvinistas e maoístas se esforçaram para mudar esse estado de coisas, mas as instituições a que serviam se encarregaram elas mesmas de demolir tais mitos, quase sempre de forma iníqua.

Quanto ao Romanée-Conti, o discreto e suave proprietário do vinhedo, Monsieur Aubert de Villaine, disse-me mais de uma vez que o vinho precisa de dez a 15 anos de guarda. Exagero, sem dúvida. Acredito que algumas safras estejam prontas antes disso, mas é difícil comprovar a tese, pelas razões já expostas.

O vinho faz parte de um estreito pedaço de terra que está entre os mais valorizados do mundo, a Côte d'Or, na Borgonha, centro da França. Ali o que conta são os vilarejos de nomes mágicos, como Vosne-Romanée (onde está o cru em questão), Gevrey-Chambertin, Puligny-Montrachet. Todos são caros.

Dizer não a um Romanée-Conti ou a um Château Margaux que por acaso apareça é uma decisão difícil. É como se esquivar a uma aventura, recusar uma descoberta. Os de índole monástica certamente vão poder resistir.

Meu modesto grupo de confrades não só torce para que venham mais garrafas como acha que candidatos, vitoriosos ou derrotados, depois das tormentas eleitorais merecem meditar diante de um belo tinto sobre a vã natureza dos desejos humanos. E fazer de tudo depois para manter o dólar baixo e comprar mais. Se der.

Renato Machado

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