As
demandas dos abastados
Recebo
uma carta e, desde as primeiras linhas, passo a esperar pela
assinatura de Liubov Andreievna Runievskaia, proprietária
do Jardim das
Cerejeiras, conforme Anton Tchecov. Nada disso. Leio: Lygia
de Carvalho,
residente em São Paulo, capital. Leitora? Habitual? Eventual?
Talvez
perdida.
Diz
dona Lygia que, em editorial de duas edições atrás,
não precisava
mandar às favas a tradição da pretensa
- pretensa, dona Lygia - imparcialidade
da imprensa brasileira e definir a escolha de CartaCapital pela
candidatura
Lula. Qualquer um entende, sustenta a missivista, que a revista
é
parcial da ponta dos sapatos à raiz dos cabelos.
Por
exemplo. A reportagem de Bob Fernandes sobre a inauguração
da loja
Vuitton em São Paulo está "eivada de sarcasmo",
mira posta nos
freqüentadores da noitada. Pergunta de dona Lygia: e os
tailleurs de
dona Marta? E a plástica de dona Marisa, "primeira-dama
do Brasil a partir de
janeiro próximo"? Que lástima, Mr. Bob não
se indigna com isso.
Dona Lygia lida com o vernáculo com elegância de
antanho, o que é ótimo,
e recheia o texto com frases em francês, o que me traz
à memória Madame
Andreievna, dona de terras medidas em verstas, versão
russa dos
alqueires, e admirável representante da aristocracia
decadente pré-Revolução
Bolchevique.
A
peça de Tchecov, que morreu antes da revolução,
é uma tragédia, com o
toque delicado, acre e melancólico, característico
do grande escritor.
Não vaticino a iminência da sublevação
popular nestes nossos pagos
cordiais, como diria Sérgio Buarque de Hollanda. Falta
caldo de cultura, e Lula,
se enfim eleito, demonstrará ser reformista em lugar
de revolucionário.
Sobra outra semelhança com a Rússia de Tchecov,
a clamorosa desigualdade entre
ricos e pobres. Inclino-me a crer - embora admita ser observação
de pouca monta -, que a aristocracia russa do começo
do século passado era
bem mais sofisticada do que a verde-amarela dos dias de hoje.
Os
nobres russos encantavam-se com Paris, os nossos com Coral Gables.
Os
nobres russos sabiam que a verdadeira elegância nunca
exibe a grife, os
nossos crivam suas roupas com marcas, signos e logotipos. No
exterior,
detecta-se a presença do abastado brasileiro à
distância de um
quilômetro, ou mais. Seus trajes rangem e faíscam.
Dona
Lygia tem o poder de me lembrar épocas idas, quando os
graúdos
nativos se pareciam mais com os russos da literatura do século
XIX, muito mais,
e o Brasil estava fartamente habilitado a se apresentar como
o país do
futuro. Agradeço a recordação e a oportunidade.
Ah, dona Lygia, que desgraça,
para todos nós, foi o golpe de 1964, com todas as suas
conseqüências, do AI-5
e Fernando Henrique Cardoso.
Golpe,
e não revolução. Revolução
é outra coisa, e a imparcialidade, no
caso, não está em causa. Golpe de Estado, é
verdade factual, assim como
a senhora se chama Lygia. Interrompeu-se, então, um processo,
desenrolado
à sombra da industrialização do País.
Os donos do poder, devidamente
supervisionados por Tio Sam, temiam que um Brasil de sindicatos
fortes e
proletariado combativo virasse uma Cuba infinda.
Derrubaram
os eleitos do povo em nome da "comunistização"
iminente e do
"caos" reinante. Para salvar a democracia em xeque,
a pique de sucumbir.
Escassas horas foram tempo bastante para completar a missão.
Golpe
preventivo. Não foi derramada uma única gota de
sangue, prova de que as
ameaças pretendidas eram obra de ficção.
Um
olhar retrospectivo à campanha eleitoral mostra que nada
mudou quanto
à capacidade literária e aos alcances da imaginação
dos donos do poder e
dos seus comunicadores. Jograis, menestréis e bobos da
corte. Demonizaram
Lula e seus propósitos. CartaCapital relatou o despropósito
e, me perdoe dona
Lygia, se ateve à verdade factual ao reproduzir ao pé
da letra o que se
dizia e se imprimia.
Escalou-se
Lula para fazer coisas do capeta, se chegasse lá. E que
mais
poderia fazer? Bem, tomar do gargalo um Romanée-Conti,
quem sabe de
safra mais vetusta daquele oferecido por Duda Mendonça,
após o debate da
quinta-feira, 3 de outubro. O marquetólogo deveria sair-se
melhor.
Não me refiro à safra de 1997, da qual emerge
sorrateira a garrafa tão
comentada. Boa, é certo, excelente até, conquanto
próxima. Aludo à hora
e ao local escolhidos. Duda Mendonça teria de saber que
Lula não deve tomar
bebidas caras em público. Fique mesmo na pinga com cambuci.
Aqui,
não ironizo. Vivemos em meio a uma sociedade tosca e
provinciana,
que degusta sôfrega o exibicionismo dos ricos como quem
no cinema assume o
papel do mocinho. A sociedade das revistas Caras, Quem, Gente.
Do colunismo
social, fenômeno solitário do jornalismo mundial.
Já a ralé, não se atreva a
sair do script. Duda Mendonça entende da matéria.
Pisou no Romanée-Conti.
Os tailleurs de dona Marta, a plástica de dona Marisa.
E agora o vinho
célebre. Vinte anos atrás, ou por aí, Lula
tomou champanhe na boate
então na moda em São Paulo. The Gallery. Falou-se
do assunto meses a fio. Anos.
Como se vê, tudo na mesma, a retórica e seus estribilhos.
Em
proveito de dona Lygia, anoto, contudo, outro ponto de contato.
Entre, pasme a senhora, os abastados e os aspirantes a abastados
do Brasil, e
certos setores da esquerda de outros tempos, havia ali gente
refinada,
estudada, badalada. Vários rebentos de familiares notáveis.
Defendiam a
ascensão do proletariado - por aqui, só na teoria
- sem temor aos
riscos.
É
muito estranho: não percebiam que o proletariado almeja
ser burguês. Ou,
pelo menos, aspira a ter acesso às benesses burguesas.
Sacrossanto anseio a alimentar um saudável espírito
de luta. Não falo das roupas de dona Marta, que as teve
de bom corte desde o nascimento. Falo da plástica de
dona Marisa. E até do Romanée-Conti oferecido
a Lula.
Mediremos
a capacidade e a fé do candidato por um gole de vinho?
(Mino Carta, jornalista)
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