ROMANÉE-CONTI PARA TODOS!
 

 

Regina Duarte é, sem dúvida, uma grande amiga de José
Serra. Não fosse, não teria arriscado perder uma imagem
construída em trinta anos de simpática convivência com
os espectadores ao estrelar o momento mais baixo da campanha
eleitoral, até agora.

Regina leu ontem (14 de outubro, no programa eleitoral de
José Serra) um texto de Nizan Guanaes, uma síntese do
que a publicidade tem de pior: a capacidade de comover com o
reverso exato da verdade, o que é muito mais que uma
simples mentira. O sentido do texto é provocar medo,
alertar para o perigo da vitória de Lula. A situação
está ruim? Esqueça a esperança de que ela melhore e
tenha medo: pode piorar. Ou, como disse o especulador (lucro
de 500 milhões de reais no primeiro semestre deste ano) a
um desempregado (12 milhões no país) cujo filho foi
morto a tiros (14 mil jovens por ano, 82% negros): "Não
podemos perder o que já conquistamos".

Num texto curto, de 171 palavras, o medo aparece quatro
vezes. Esta repetição é o principal, quase o único
sentido do texto. No mais, é o velho preconceito e
terrorismo de sempre: Regina tem medo da volta da
inflação, da pressão nacional e internacional, da
perda da estabilidade, só não tem medo de dizer frases
sem sentido. Abre o texto dizendo "eu estou com medo" e
fecha dizendo que vota "sem medo". Como ela pode votar sem
medo se está com medo? O que ela diz, claramente, é o
exato oposto: vota com medo. O que ela quer dizer (ou o que
o texto de Nizan quer que ela diga) é: "tenha medo, vote
em Serra".

Regina diz também que "achava que conhecia" o Lula, mas
hoje não o reconhece mais, "tudo o que ele dizia mudou
muito" (sic) e "isso dá medo na gente". Não entendi
essa. O que o Lula "dizia" mudou muito? Talvez o Nizan
queira dizer que o que o Lula diz hoje é diferente do que
ele dizia antes, que o Lula mudou. (Fato que o próprio
Lula não cansa de lembrar. Assustador é quem não muda
nunca.) Talvez a Regina queira dizer que sente medo do Lula
ter mudado, queria que ele continuasse como era antes.

É isso? Não, não é nada disso. É só uma velha
amiga, olhando diretamente para a câmera, com medo real ou
simulado, e repetindo muitas vezes a palavra medo. É
compreensível que as elites de sempre e os agiotas da hora
lutem bravamente para manter seus lucros exorbitantes no
país mais injusto do planeta. O triste é ver uma artista
chamar de "lata do lixo" a esperança de uma vida melhor de
milhões de brasileiros, muitos deles seus fãs, e muitos
deles vivendo em condições de vida duríssimas. Esta
esperança está representada, neste primeiro turno, por
40 milhões de votos em Lula e 77% de votos na
oposição. Regina poderia ter encerrado sua carreira com
um papel melhor do que o de porta-voz da covardia.

(Jorge Furtado, cineasta)

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