Cara
Regina,
Vi
você na TV dizendo que está com medo e por isso
vai votar no Serra.
Sempre te admirei e respeitei como artista e como cidadã,
e por isso dei
atenção às suas palavras, e procurei refletir
sobre o assunto. Eis a minha
conclusão:
Eu
não estou com medo. Ao contrário, há muito
tempo eu não me sinto tão
confiante e cheia de esperanças. Medo de mudanças?
Mas justamente o que eu
quero é mudar. Eu quero um emprego melhor, uma casa melhor,
uma educação
melhor, uma saúde melhor, uma vida melhor, um país
melhor. E quero agora.
Não quero esperar mais quatro anos para tentar de novo.
É por isso que eu
vou votar no Lula.
A
sensação que eu tenho é de que meu time
disputou as finais dos últimos
campeonatos, e perdeu por tão pouco. Agora, estamos às
vésperas de outra
decisão, e nunca meu time esteve tão próximo,
tão bem preparado. O grito
de campeão, a explosão de alegria, está
tudo na garganta, prontinho pra
sair. A vitória do Lula me faz sentir um pouco vitoriosa
também. Me faz
ter vontade de ir para a rua cantar e abraçar as pessoas,
mas me faz ter
vontade de trabalhar também, me faz sentir co-responsável
por esse novo
projeto de Brasil.
O
medo, por outro lado, nos deixa quase sempre paralisados, bloqueados,
e
tão cegos que a gente passa a chamar estagnação
de estabilidade. O medo
faz a gente ter posições do tipo "farinha
pouca, meu pirão primeiro". O
medo alimenta preconceitos e uma crescente conformação
com a dor. A gente
passa a achar normal ficar seis meses desempregado, ver fila
em porta de
hospital, ouvir tiro de madrugada, adiar de novo qualquer sonho,
porque o
dinheiro nunca dá. A gente passa a achar que a vida é
assim mesmo, e que
tá ruim pra todo mundo.
Você
diz que quer votar num cara sério e que você conhece.
Eu achei que
desmemoriada era só a sua personagem da última
novela das sete... Se
seriedade for conhecer na pele e ao vivo todas as misérias
e riquezas
desse país, todo o povo que sofre e todo o que trabalha
e produz; se
seriedade for ter responsabilidade, maturidade e um projeto
claro e
competente para o Brasil, então sério é
o Lula, faça-me o favor. Só que em
vez de apregoar o apocalipse, o Lula também sabe sorrir,
estender a mão, e
manter elevado o "moral das tropas", como aliás,
todo grande líder deve
saber fazer.
Eu
não acho que vai ser fácil, nem acho que vai ser
rápido. Mas acho que
vale a pena tentar, vale a pena dar esse passo em direção
à mudança.
Por que sabe o que mais? Eu descobri que eu quero ser feliz,
e não tenho
medo disso. Você tem?
(Ana
Paula Garcia de Medeiros, arquiteta)